AS CONFISSÕES DE UM TERRORISTA

“Eu nunca quis ser o que me tornei.”
Eu não lembro exatamente do dia em que deixei de ser apenas um garoto e passei a ser aquilo que o mundo chama de terrorista. Não existiu um momento oficial, um rito, uma reunião dizendo “a partir de hoje você é isso”. Foi algo gradual, quase imperceptível, construído em pequenas manipulações, privações e medos diários. Eu cresci em um ambiente onde a violência era normal, onde as armas eram parte da paisagem e onde os mais velhos repetiam as mesmas frases todos os dias até que elas se tornassem a única verdade possível. Antes mesmo de entender o significado da palavra “vida”, já me ensinavam a lidar com a ideia da morte.

Eu nunca gostei desse caminho. Isso é uma coisa que pouca gente acredita, mas é a verdade. O mundo inteiro imagina que quem carrega uma arma gosta disso, sente orgulho, sente poder. Talvez alguns sintam, mas eu não. Para mim, foi sempre peso, sempre cobrança, sempre medo de errar, medo de desobedecer, medo de morrer se questionasse as ordens. Não existe glamour nenhum. Existe obediência e sobrevivência. Só isso.
Apesar de tudo, eu sempre tive consciência do que acontecia ao meu redor. Quando eu via uma mãe segurando o corpo do filho, implorando por ajuda que jamais viria, isso me atingia. Cada vez que tínhamos que atuar em operações contra vilarejos, eu sentia algo se quebrar dentro do meu peito. Eu não comentava, porque ninguém comenta. Demonstrar qualquer sinal de fraqueza significa colocar um alvo nas próprias costas. Então eu guardava tudo para mim: os questionamentos, o remorso, a sensação constante de estar traindo algo que eu nem sabia definir, mas que sentia profundamente.
O pior momento do dia é sempre a noite. Quando o silêncio cai, não existe propaganda, doutrina, discurso religioso ou ideológico que tamponem a consciência. Na escuridão, as imagens voltam. Voltam nítidas. Eu acordo várias vezes com o coração acelerado, tentando apagar rostos que não deveriam estar mais na minha memória, mas estão. Tentando convencer a mim mesmo que “era necessário”, que “era missão”, que “era guerra”, que “era proteção da causa”. Mas a verdade é que, lá no fundo, eu sempre soube que não era nada disso. Era coerção. Era manipulação. Era pressão emocional e religiosa que nunca me deu espaço para pensar por conta própria.
Eu não odeio ninguém. Isso talvez seja o ponto mais difícil de explicar. As pessoas acham que somos movidos por ódio, e eu entendo por que pensam assim. Mas não é verdade. Pelo menos não para mim. Eu nunca odiei o povo que nos ensinaram a ver como inimigos. Nunca odiei pessoas que seguiam outra fé. Nunca odiei soldados do outro lado. O que eu sempre odiei — com intensidade — foi a vida que me restou. O fato de ter sido empurrado para um caminho que não era uma escolha. O fato de terem decidido quem eu seria antes mesmo de eu ter chance de descobrir quem eu era.
Eu também preciso admitir algo que nunca admiti em voz alta: eu sempre quis sair. Não uma vez ou duas. Sempre. Mas dentro da estrutura em que vivi, deixar o grupo significa assinar a própria sentença. Ninguém sai. Ninguém abandona. Quem tenta é caçado, morto ou usado como exemplo. E mesmo quando eu pensava em fugir, algo em mim dizia que já era tarde demais. Que mesmo se eu encontrasse uma rota, eu nunca conseguiria recomeçar. A marca ficaria comigo. O passado gritaria mais alto que qualquer tentativa de futuro.
Escrevo isso porque é a única forma que encontrei de organizar aquilo que eu carrego há anos. E porque, talvez, se alguém um dia ler este depoimento, perceba que por trás da imagem de “terrorista” existe um ser humano esmagado por circunstâncias que nunca controlou. Não estou pedindo desculpas pelo que fiz. Nem tento limpar a minha história. Só estou dizendo que nada disso nasceu de mim. Foi colocado. Foi forçado. Foi moldado.
Eu não sei se algum dia terei chance de ser outra coisa. Mas sei que nunca quis ser o que me tornei.
O que eu teria sido se não fosse a guerra
Quando penso no que eu poderia ter sido, não faço isso com nostalgia ou romantização. Faço como quem avalia destroços depois de um bombardeio. Olho para dentro e vejo partes de mim que nunca chegaram a existir porque foram arrancadas antes mesmo de nascer. É estranho pensar em futuro quando você só conheceu um tipo de presente, mas às vezes eu me permito imaginar como minha vida teria sido se eu tivesse crescido em um lugar onde a guerra não era a regra.
A primeira coisa que me vem à cabeça é a educação. Eu teria aprendido a ler e escrever com calma, como qualquer criança deveria aprender. Teria entendido as palavras antes de entender as armas. Não teria passado minha adolescência decorando versos distorcidos usados para manipulação, mas talvez estudando ciência, história, matemática. Talvez eu tivesse descoberto gosto por alguma profissão. Mas isso nunca aconteceu. O tempo que deveria ter sido dedicado ao aprendizado foi dedicado ao treinamento. E isso não é um detalhe, é a raiz do problema: tiraram de mim a chance de pensar por conta própria.
Outra coisa que eu penso muito é na ideia de formar família. Existe uma diferença brutal entre querer ser pai e acreditar que você tem o direito de ser pai. E eu nunca acreditei nisso. A vida que me deram não combina com a função de criar alguém. Sempre que vejo pais normais com seus filhos, sinto um peso difícil de explicar. Eu imagino como seria ter uma criança correndo pela casa, chamando meu nome, perguntando coisas simples sobre a vida. Mas na minha realidade, eu fui treinado para destruir, não para cuidar. E a pior parte é que eu sei disso. Sei que ninguém entregaria uma vida inocente nas minhas mãos. Não depois de tudo o que fiz, mesmo que metade dessas ações não tenham sido escolhas minhas.
Também penso no trabalho. Algo tão básico quanto ter um ofício. Eu poderia ter sido pedreiro, como meu pai foi. Ele construía casas. Construía abrigo. Construiu a nossa. Ele sempre dizia que colocar tijolos no lugar certo dava sentido ao dia, porque significava ajudar alguém a viver melhor. Eu teria seguido esse caminho. Era o mais lógico. Eu tinha habilidade manual, aprendia observando, era bom com ferramentas. Mas o destino que me deram foi o inverso: destruir casas, destruir famílias, destruir qualquer estrutura que indicasse segurança. É uma ironia que me persegue todos os dias.
Às vezes eu penso no amor, mas não como uma fantasia. Penso como algo que deveria ter sido normal, acessível. Ter alguém para dividir a vida, conversar à noite, fazer planos, discutir bobagens, compartilhar um prato de comida. Mas qualquer forma de afeto era tratada como fraqueza. Aqui, ninguém demonstra sentimento. Ninguém cria vínculo. Ninguém se permite ter alguém. O amor não é proibido por lei, mas é proibido pela realidade. E com o tempo, você passa a acreditar que simplesmente não nasceu para isso.
Dormir também é algo que eu gostaria de ter vivido de outro jeito. Pessoas normais deitam e descansam. Eu deito e revivo tudo. O sono, para mim, nunca foi descanso. É uma continuação do dia, só que sem controle. Talvez, se tivesse crescido fora desse ambiente, eu teria sonhos comuns, daqueles que desaparecem quando você acorda e vai tomar café. Hoje, eu acordo antes do sol porque não consigo ficar vulnerável por muito tempo. A guerra molda até o que você faz quando está inconsciente.
No fim das contas, quando penso em quem eu teria sido, chego sempre à mesma conclusão: qualquer coisa teria sido melhor do que isso. Qualquer profissão, qualquer vida simples, qualquer rotina honesta. Eu teria sido agricultor, motorista, vendedor, professor — não importa. O que importa é que eu teria sido alguém que existiu por escolha e não por imposição. Alguém que teve a chance de construir algo ao invés de destruir.
E, apesar de tudo, existe uma pequena parte em mim que acredita que esse homem ainda existe aqui dentro, mesmo que soterrado. Não sei se isso é esperança ou apenas instinto de sobrevivência tentando simular humanidade. Mas é o que resta. E é isso que me faz continuar falando, escrevendo e tentando entender se ainda há saída para mim.
Eu não sei se há.Mas sei que essa versão do eu que poderia ter existido é a única coisa que me lembra que eu não nasci para isso.Ninguém nasce.
Carta para um menino prestes a entrar no extremismo
Se você está lendo isto, provavelmente está no mesmo ponto onde eu estive muitos anos atrás: cercado de gente dizendo que você tem um destino grandioso, que você é especial, que nasceu para lutar por algo maior que você mesmo. Talvez você esteja com medo de dizer “não”. Talvez esteja tentando acreditar que esse caminho é o certo porque todos ao seu redor repetem isso todos os dias. Talvez já tenham te prometido glória, honra, proteção, respeito, lugar no céu ou vingança contra quem “te fez mal”.
Eu não vou tentar te convencer com frases bonitas.
Vou te contar o que ninguém contou pra mim.
Quando você entrar nesse caminho, não vai ganhar poder. Vai perder tudo. Vai perder a liberdade primeiro, depois a identidade, depois o sono, depois o futuro. Eles vão te dizer que você está entrando em um “grupo”, mas, na prática, você está entrando em uma prisão. Você vai se cercar de homens que obedecem cegamente porque têm medo de morrer se questionarem qualquer ordem. E você vai aprender, cedo demais, que nesse mundo ninguém se importa com o que você sente.
Eles vão te prometer irmandade. Isso também é mentira. A única união que existe aqui é a obrigação. Ninguém é amigo. Ninguém é irmão. Todos são peças substituíveis. Se você cair, outro assume o seu lugar no mesmo dia. Se você hesitar, será tratado como traidor. Se você pensar com a própria cabeça, será punido. E se tentar sair, a vida que você conhece termina.
Você acha que vai lutar por uma causa, mas rapidamente vai perceber que não sabe exatamente qual é essa causa. As explicações são sempre vagas. Os discursos sempre mudam. O que hoje é “necessário” amanhã vira “erro”. E o que hoje é condenado pode virar ordem na semana seguinte. Você vai se perder nisso. Vai se perguntar por que alguém está morrendo, e a única resposta será: “porque mandaram”.
Prepare-se para sentir medo. Não o medo que você conhece hoje. Medo constante, diário, que aperta o peito e nunca vai embora. Medo de ser atacado. Medo de ser descoberto. Medo de fazer algo errado. Medo de estar se aproximando do fim sem perceber. Medo de fracassar moralmente e fisicamente ao mesmo tempo.]
As primeiras vezes que você for levado a algum tipo de operação — não importa qual — você vai sentir algo que não vai saber nomear. Não é coragem. Não é força. É choque. Sua mente vai tentar justificar, mas seu corpo vai saber a verdade: você não nasceu pra isso. Ninguém nasce. Você vai tentar dormir naquela noite, mas não vai conseguir. E, a partir daí, dormir bem vira algo raro.
Eles vão te ensinar que emoção é fraqueza, que questionar é traição, que empatia é pecado. Você vai se esforçar para acreditar nisso, porque acreditar é mais fácil do que enfrentar a realidade de que está sendo usado.
Mas deixa eu te dizer algo claramente:os homens que vão te recrutar não vivem a vida que vão te obrigar a viver.
Eles têm casas, famílias, comida, descanso.
Você só terá riscos, cobrança e medo.
Se você entrar, a sua vida deixa de ser sua.
E ninguém vai te devolver.
Eu não te digo isso para te assustar.
Te digo porque eu daria tudo para alguém ter me dito isso quando ainda havia tempo para escolher.
Se você ainda pode decidir, decida sair.
Decida viver.
Decida não se tornar o que eu me tornei.
Não existe honra naquilo que nos faz perder o que temos de humano.
E não existe “destino” quando tudo foi imposto antes de você entender o que estava acontecendo.
Se você ignorar esta carta, o mundo inteiro vai te chamar de terrorista.
Mas a pior parte é outra:você vai começar a se ver como algo que você nunca foi.
Se ainda tiver escolha, não venha.
Salve o que ainda existe de você.
Assinado por alguém que teria dado tudo para ter ouvido isto a tempo.
O dia em que pensei em fugir
A primeira vez que pensei seriamente em fugir não foi motivada por heroísmo ou arrependimento. Não foi porque eu tinha chegado ao limite da consciência. Foi algo mais simples e mais humano: foi porque eu finalmente enxerguei, sem desviar o olhar, o resultado real do que eu fazia.
Tínhamos recebido uma ordem para “investigar” uma pequena aldeia que supostamente estava colaborando com tropas rivais. O que chamavam de investigação era, na prática, um ato de intimidação. Nada ali era novo para mim. Já tinha visto medo, destruição e caos antes, mas naquele dia aconteceu algo diferente: eu parei de olhar como soldado e comecei a olhar como ser humano — talvez pela primeira vez em anos.
Quando chegamos, tudo estava silencioso demais. As pessoas nos observavam com aquela mistura de ódio e desespero que aprendi a reconhecer. Mas um detalhe me atingiu como um golpe direto, e foi isso que começou a rachar a minha convicção. Uma mulher estava ajoelhada segurando um garoto que, pela maneira como estava imóvel, eu sabia que não estava vivo. Ela não gritava. Não implorava. Não amaldiçoava ninguém. Apenas segurava o filho no colo, como se ainda tentasse aquecê-lo. Era um silêncio tão absoluto que parecia impossível.
Eu reconheci o tipo de ferimento. O garoto havia sido atingido por uma explosão dias antes — provavelmente de uma operação onde eu mesmo estive presente. Não importava se tínhamos sido nós, o grupo rival, ou alguma força estrangeira. Ali, não existia lado. Existia apenas uma mãe e um corpo pequeno demais para qualquer justificativa.
Eu me aproximei sem saber por quê. Não era permitido. Qualquer aproximação sem ordem parecia fraqueza. Mas eu fui mesmo assim. E quando os olhos dela cruzaram os meus, eu senti algo que não senti em anos: ela não me odiava. Não tinha energia para isso. Ela simplesmente me enxergou como parte da máquina que tinha tirado tudo dela. E eu entendi que era verdade.
Foi ali que tudo colapsou na minha cabeça.
Eu percebi que nenhuma das justificativas que eu repetia fazia sentido. Percebi que a tal “causa maior” que nos empurravam goela abaixo não sustentava a dor que estava na minha frente. Percebi que, enquanto nós discutíamos discursos de glória, aquela mulher tinha perdido a única coisa verdadeira que importava na vida dela.
Eu lembro de ter afastado o olhar porque não consegui sustentar o peso do que estava sentindo. E naquele instante, pela primeira vez, minha mente fez a pergunta que eu sempre evitei:
“Por que eu continuo aqui?”
O resto do dia foi automático. Cumpri todas as ordens, mantive a postura, repeti as frases decoradas. Ninguém percebeu nada. Mas algo dentro de mim tinha sido quebrado. Não rasgado — quebrado. E uma coisa quebrada não volta ao formato original.
Naquela noite, eu não dormi. Cada vez que fechava os olhos, eu via o rosto daquela mulher. Não de forma dramática, mas como um fato que se repetia, impossível de ignorar. Ela não me implorou nada. Não me pediu para mudar. Não tentou mexer comigo. Era só a realidade pura me encarando.
Foi ali que eu entendi que, se eu continuasse vivendo daquele jeito, eu nunca mais seria capaz de me ver como humano. E foi ali que pensei, pela primeira vez, em fugir. Não porque eu acreditava que conseguiria. Mas porque percebi que não sobreviveria por muito mais tempo carregando aquilo por dentro.
Eu não fugi naquela época.Não por falta de vontade, mas porque eu sabia que, se tentasse, seria morto antes de chegar a vinte metros do acampamento.Mas a ideia ficou.Ficou como uma porta entreaberta que eu não conseguia mais fechar.
A partir daquele dia, eu não obedecia mais com convicção.Obedecia por medo.E esse tipo de obediência não dura para sempre.
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