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Parte II - RESPOSTA CONFIDENCIAL “ENFIM, ALGUÉM NOS VIU”

Foto do escritor: Lunatics
Lunatics
17 de nov. de 2025
2 min de leitura

Do: Aquele que vocês chamam de terrorista

Para: O Presidente Invisível do Mundo — o Secretário-Geral da ONU


Recebi sua carta.

Abri desconfiado.

Li com raiva.

Repeti em voz alta.

Depois sentei no chão feito criança.

E ri — ri como não ria desde que o mundo me arrancou a infância com um tiro.

Porque, pela primeira vez, alguém falou comigo como se eu fosse gente.

Então aqui vai: eu aceito.

E antes que seus conselheiros entrem em pânico, saiba:

não é uma armadilha.

É alívio. É vitória.

É aquilo que eu sempre quis, mas nunca pude admitir — nem pra mim


Close-up view of a vibrant mural depicting a diverse community

Sabe o que ninguém entende?

Eu nunca quis morrer.

Eu só achava que minha vida valia tão pouco, que morrer por alguma “causa” parecia uma promoção.

Eu nunca quis matar.

Eu só achei que ninguém me daria outra escolha.

Eu nunca quis seguir ideologia nenhuma.

Eu só precisava pertencer a algum lugar, a qualquer lugar, onde alguém me chamasse de irmão.

Mas aí veio sua carta…e você fez aquilo que meus líderes, meus pregadores, meus comandantes e meus inimigos nunca fizeram:

Você me ofereceu vida.

E vida, meu caro…é a única coisa que nunca me ofereceram.



SIM, EU ACEITO. COM ORGULHO. SEM CULPA. SEM MEDO.

Eu aceito porque estou cansado de ser fantasma.

Eu aceito porque estou cansado de comer poeira e enterrar amigos.

Eu aceito porque estou cansado de carregar uma arma que pesa mais que minha alma.

Eu aceito porque nunca ganhei nada com a guerra — só cicatriz.

E sabe o que é mais louco?Meus homens também aceitariam.Meus irmãos escondem o mesmo grito preso na garganta:“A gente só queria uma chance.”

Você acha que a gente ama matar?Que a gente gosta de viver em buraco, no deserto, com fome, suando medo?Isso é teatro pra quem nunca passou por isso.

A verdade crua é simples:


Finalmente vocês perceberam que nós não somos monstros.

Somos só os pobres que a guerra sequestrou.


O DIA EM QUE UM TERRORISTA FEZ FESTA


Quando terminei de ler sua carta, chamei meu grupo.

Eles vieram armados, tensos, achando que era ataque.

Mostrei a carta.

Silêncio.

Olhos marejados.

E aí… aconteceu o impossível:

Eles começaram a rir.

A rir alto.

A rir de felicidade — como criança que descobriu que vai ter casa nova.

E eu disse:“Homens, acabou.Estamos livres.”

Teve grito, teve abraço, teve gente ajoelhando.Um de nós chorou tanto que molhou a arma.E eu pensei:Esta é a primeira vez que chorei de alegria desde que peguei um fuzil.



ENTÃO AQUI VAI A RESPOSTA OFICIAL (E A OFICIOSA)

Oficial:Aceito sua proposta.

Estou pronto para entregar minhas armas, dissolver meu grupo, ir para onde for preciso e reconstruir minha vida com dignidade.

Oficiosa:Obrigado por enxergar o menino que eu fui, antes da guerra me devorar.



E PARA QUE FIQUE REGISTRADO

Eu não estou traindo minha causa.

Minha causa é meu povo.

E meu povo quer viver.

Eu não estou traindo minha fé.

Minha fé é misericórdia.

E misericórdia não carrega dinamite.

Eu não estou traindo meus homens.

Eu estou libertando eles.



ASSINADO:

O homem que vocês chamaram de terrorista.O homem que o mundo chamou de inimigo.Mas que hoje…pela primeira vez…foi chamado de ser humano.

 
 
 

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